quarta-feira, 3 de março de 2010

Maldito sejas, Saramago


Uma das coisas que recebi no Natal foi um livro de José Saramago. Assim que abri o embrulho pensei baixinho que era óbvio que a pessoa que me oferece tal coisa não me conhece de todo. Saramago nem pensar. Tudo no homenzinho (pode-se chamar “homenzinho” ao senhor?) me irrita, me entra na pele e me tortura. E não se trata da sua recente quezília com “Deus”, mas toda a sua postura desde que me lembro de existir e de estar minimamente atenta ao que se passa à minha volta. Rapidamente o livro foi colocado na prateleira, atirado ao abandono, sem sequer ter direito a uma folheada para lhe tomar o cheiro (e que bem que cheira um livro novo). Isto até há dois dias atrás.

Desde que acabei o curso, e entrei neste novo e maravilhoso mundo do desemprego, que tento retomar o hábito tão intrínseco que tinha de ler. Lia muito, mas a faculdade fez-me esquecer esse meu gosto, infelizmente. Muito culpa dos grandes calhamaços de anatomia, esses depravados. Tinha acabado de ler o meu “Ainda Alice”, que me entreteve durante um tempo, quando reparei que me estava a deitar na cama sem ler. É bom sinal quando sinto que me faz falta. Da cama atirei um olhar de soslaio ao “Todos os Nomes” de Saramago, impávido e sereno na mesma prateleira, tal e qual como o deixei.

Deveria? Não, é Saramago

Ele até é fininho, deve ser rápida a tortura. Porque não? Não, é Saramago

Os vizinhos já os li a todos, embora há um bom tempo atrás, certo? Não, é Saramago.

E esta minha dúvida, se me erguia ou não da cama para alcançar o dito cujo, fez-me pensar naquelas pessoas, e que eu tanto crítico, que dizem que não gostam de certo prato de comida, mesmo antes de o provarem. Como grande adepta da culinária que sou, fico extremamente ofendida quando alguém se recusa a comer o manjar que eu preparei apenas com o olhar, exclamando corajosamente: “Não gosto”. Ingratos!

A verdade é que nunca li José Saramago. E para ficar de bem com a minha consciência resolvi levantar-me, enfrentar o frio que estava fora do meu cobertor, e pegar no livro. Assim posso criticar o “homenzinho” com argumentos muito mais válidos, pensei. E assim foi.

Li cerca de metade, e ele já está a chamar por mim para ler o resto. Não é que o estupor do livro me está a intrigar ligeiramente?

Maldito sejas Saramago. Tu, o teu prémio Nobel e o teu snobismo ranhoso. Como diria a minha mãe, bem me “quilhaste”.
RITA

Sem comentários: