quinta-feira, 25 de março de 2010

"Ala que se faz tarde"

Eu até sou gaja para gostar de cozinhar, mas dada a minha última aventura pelo mundo da pastelaria, claramente fracassada, decidi que talvez não seja mesmo este o meu caminho. O que não deixam de ser boas notícias. Ora sigam lá o meu raciocínio:

Pasteleira: não sirvo, queimei os meus mini-palmieres, que tinham tudo para dar certo, uma vez que me limitei a comprar a massa já feita, e moldar aquilo da maneira mais similar, e “olarilas”, era só atirar com aquilo para o forno. Certo? ERRADO! Claro que se alguém mais distraído me perguntar o que raio se passou ali, eu tenho já um ou dois álibis prontinhos na ponta da língua. Posso sempre alegar que o forno não presta, é a gás, não cozinha de forma igual, pregou-me uma partida (é sempre fácil culpar uma outra coisa que não nós). Posso sempre dizer que fui num instantinho salvar o gato da vizinha que estava preso em cima de uma árvore e demorei mais tempo do que pensava (dá um certo charme dizer que a culpa da minha distracção foi o meu sentido de salvadora da pátria, sempre pronta e disponível para ajudar). Posso alegar que me deu uma tal dor de barriga que foi impossível aguentar, tive de chamar o INEM e sabia perfeitamente que ia queimar os palmieres (lembro-me bem que as minhas “dores de barriga” ou “problemas femininos” livraram-me de muitas boas aulas de educação física, porque não haveriam de resultar agora?). Tudo isto seria plausível, e vindo de uma pessoa tão credível como eu, jamais alguém ousaria duvidar, mas a verdade é apenas e só esta: “hum...cheira-me a qualquer coisa! MERDA, OS PALMIERES”.
- Pasteleira cortada da lista.

Operadora de Caixa: poderia ser uma opção, não fosse o facto de ter chegado ao fim do meu singelo contrato de 6 meses com aquela empresa que não se pode aqui dizer o nome, mas que começa com S e acaba com E, e que no meio tem ONA, e a dita empresa não tem mais nada e olha, “vai-te embora que já tiveste a tua oportunidade e isto de te pagar mais 6 meses era capaz de ser uma chatice”. Eu até nem desgostava daquela coisa de colocar palmieres já prontinhos a ser consumidos dentro de sacos de plástico biodegradáveis, assim como perguntar se quer descontar do cartão ou arredondar para ajudar a Madeira umas 1524 vezes por dia, mas realmente não me fez nada bem às minhas ricas varizes.
- Menina de caixa cortada da lista.

Ajudante de Cozinha: outra coisa que eu experimentei, com toda a ingenuidade de uma adolescência em construção. Lavei muitas panelas, muitos pratos e copos, arranjei muita salada, fiz muitos crepes e gelados, cozinhei muitas francesinhas, tostas mistas, cachorros da casa, hambúrgueres no pão e afins...aquilo até estava a correr muito bem até descobrir que uma colega minha ganhava menos que eu, pelo mesmo serviço e horas de trabalho. Eu até podia esfregar as mãos de contente e ficar caladinha no meu humilde cantinho, mas não, fui feita fina questionar a “chefona” o porquê de tal acontecimento. Maldita hora que o fiz pois a senhora não tem mais nada, faz uso do seu autoritarismo e de espátula dos crepes em riste desata num berreiro desenfreado, fazendo ver a toda a gente que quis ouvir que eu não ia era ganhar mais nada, pois estava despedida.......”ÉS UMA SINDICALISTA”, proclamou. Fui para casa chorar nos ombros dos meus pais, não só porque me mandaram embora, mas porque tinha 17 anos e ainda nem sequer sabia o que era um sindicalista.
- Lavadora de pratos/engraxadora cortada da lista.

Parasita da Sociedade: Seria perfeito, o cargo ideal para uma pessoa com o meu perfil. Até já estava a imaginar o meu Curriculum Vitae: capacidade de dormir até 14 horas diárias, capaz de vegetar no sofá até ganhar úlceras de pressão, inigualável competência de comer sem ter de cozinhar, ineficaz em tentativas de efectuar qualquer tipo de tarefa doméstica. Ai como seria perfeito, não fosse um pequeno contratempo: o tostãozinho, o pilim, a massa...de onde viria ela?
- Lesma remelosa cortada da lista.

E sim, isto são excelentes notícias. Então não é que só agora é que eu percebi? Se não consigo ser nada disto, é porque a minha vocação é mesmo ser ENFERMEIRA! Só pode! É que, PORRA, gosto mesmo daquilo. Tenho saudades de tudo que está intrinsecamente ligado à profissão que escolhi e estou para aqui a ver o Mundo girar.

Sim, são excelentes notícias para quem precisa de um último empurrão. Aqui não há trabalho? Acelerar com os papéis, e ‘bora emigrar que já se faz tarde.
ALICE


PS: Quem achar que eu estou doida, agradeço que não me digam, não vá eu mudar drasticamente de opinião e acabe a lavar pratos.
(Sindicalista...eheheh, agora que penso e que sei o que é, a senhora teve a sua graça).


sábado, 20 de março de 2010

Quem te disse?


Quem te disse a ti, Alice Maria, que podias ser pasteleira? Heim?



RITA

terça-feira, 16 de março de 2010

Vida em Stand-by

Eu acho, melhor, tenho a certeza, que deveria estar a fazer muito mais do que realmente faço. Deveria estar a mandar mais currículos dos que efectivamente mando, deveria tratar dos meus papéis para emigrar com muita mais velocidade do que realmente trato, deveria estar a escrever o meu artigo cientifico, em espera desde Julho do ano passado, deveria fazer mais serviços na Cruz Vermelha dos que os que estou a fazer neste momento, deveria levar a recruta mais a sério, deveria fazer mais exercício, deveria sair mais de casa para ver o sol e o mar, que está mesmo aqui ao pé, deveria sair à noite e ver os meus amigos, devia ir ao cinema de vez em quando, devia comer menos gulodices, devia...devia....devia....

Mas não, o desemprego absorveu-me por completo e sinto toda a minha vida, pessoal e profissional, em stand-by.

Deveria fazer muito mais, e no entanto só me apetece ficar inerte e ouvir disto:




É que este homem, para mim um dos maiores poetas deste País, e a sua voz, fazem-me sentir como se não existisse mais nada no Mundo.....e assim fico!!



RITA

quarta-feira, 10 de março de 2010

Poema sem nexo nem contexto #2

Estou insane.
Vagueei km no meu pequeno quarto,
Droguei-me, soltei-me.
Vivo no mundo meu,
Mundo aberto para o zero.
Quero ver.
Quero correr.
Sujei os dedos de azul,
Com uma tinta que não escrevi.
Sorte que foste,
Azar que quero ser e ter.
Calor a bater no corpo,
Faz-me gemer de mágoa.
Balanço sobre mim,
Sem sentido nem vontade.
Cruzo-me com o que não há,
Esqueço-me de cores e sabores.
Insane, não faço sentido.
A cama me espera,
E durmo no chão.
De veludo me acho e me sinto,
Como se requintado o passado.
Amarro o cabelo em penitência,
Adoro sem vontade,
E marcas no corpo me lembram
De tudo o que não fui.
Fujo de luz,
Fico assim, em trémulos.
Asas que não querem voar.
Descansa. Medita. Relaxa.
Vai o grito para dentro,
E quero ser insane sempre.
E enfim lacrimejo.
O alívio.
Que me puxem para a realidade,
Não quero, não deixo.
Quente a mão que me arrepia,
Partilho tudo que tenho com ninguém.
Sou insane, louca dentro de mim.
Tenho coragem para ter medo,
E sinto-me partir...





ANA

terça-feira, 9 de março de 2010

Eu só queria saber...

Recebi hoje este mail alegando tratar-se de uma história verídica. Parece-me
óbvio que é uma anedota, mas como qualquer anedota que se preze, e que queira ter algum efeito, necessita de uma boa dose de realidade.

"- Bom dia, é da recepção? Eu gostaria de falar com alguém que me desse informações sobre um doente internado. Queria saber se a pessoa está melhor ou se piorou...

- Qual é o nome do doente?

- Chama-se Celso e está no quarto 302.

- Um momentinho, vou transferir a chamada para o sector de enfermagem...

- Bom dia, sou a enfermeira Lourdes... O que deseja?

- Gostaria de saber a condição clínica do doente Celso do quarto 302, por favor!

- Um minuto, vou localizar o médico de plantão.

- Aqui é o Dr. Carlos. Em que posso ajudar?

- Olá, doutor. Precisava que alguém me informasse sobre a saúde do Celso que está internado há três semanas no quarto 302.

- Só um momento que eu vou consultar a ficha do doente... Hummm! Aqui está: alimentou-se bem hoje, a pressão arterial e o pulso estão estáveis, responde bem à medicação prescrita e vai ser retirado da monitorização cardíaca amanhã. Continuando bem, o médico responsável assinará a alta em três dias.

- Ahhhh, Graças a Deus! São notícias maravilhosas! Que alegria!

- Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, certamente da família!?

- Não, sou o próprio Celso telefonando aqui do 302! É que toda a gente entra e sai desta merda deste quarto e ninguém me diz porra nenhuma. Eu só queria saber como estou....."



Talvez o Sr. Celso não tivesse perguntado à pessoa certa, porque a visão que eu tenho dos profissionais de saúde não é esta. De todo. De qualquer maneira fez-me rir.

Só não entendo porque não foi a enfermeira que deu as informações que, muito provavelmente, foi ela que as recolheu...sabe lá o médico se o Celsinho comeu a sopa toda!




ALICE

quarta-feira, 3 de março de 2010

Maldito sejas, Saramago


Uma das coisas que recebi no Natal foi um livro de José Saramago. Assim que abri o embrulho pensei baixinho que era óbvio que a pessoa que me oferece tal coisa não me conhece de todo. Saramago nem pensar. Tudo no homenzinho (pode-se chamar “homenzinho” ao senhor?) me irrita, me entra na pele e me tortura. E não se trata da sua recente quezília com “Deus”, mas toda a sua postura desde que me lembro de existir e de estar minimamente atenta ao que se passa à minha volta. Rapidamente o livro foi colocado na prateleira, atirado ao abandono, sem sequer ter direito a uma folheada para lhe tomar o cheiro (e que bem que cheira um livro novo). Isto até há dois dias atrás.

Desde que acabei o curso, e entrei neste novo e maravilhoso mundo do desemprego, que tento retomar o hábito tão intrínseco que tinha de ler. Lia muito, mas a faculdade fez-me esquecer esse meu gosto, infelizmente. Muito culpa dos grandes calhamaços de anatomia, esses depravados. Tinha acabado de ler o meu “Ainda Alice”, que me entreteve durante um tempo, quando reparei que me estava a deitar na cama sem ler. É bom sinal quando sinto que me faz falta. Da cama atirei um olhar de soslaio ao “Todos os Nomes” de Saramago, impávido e sereno na mesma prateleira, tal e qual como o deixei.

Deveria? Não, é Saramago

Ele até é fininho, deve ser rápida a tortura. Porque não? Não, é Saramago

Os vizinhos já os li a todos, embora há um bom tempo atrás, certo? Não, é Saramago.

E esta minha dúvida, se me erguia ou não da cama para alcançar o dito cujo, fez-me pensar naquelas pessoas, e que eu tanto crítico, que dizem que não gostam de certo prato de comida, mesmo antes de o provarem. Como grande adepta da culinária que sou, fico extremamente ofendida quando alguém se recusa a comer o manjar que eu preparei apenas com o olhar, exclamando corajosamente: “Não gosto”. Ingratos!

A verdade é que nunca li José Saramago. E para ficar de bem com a minha consciência resolvi levantar-me, enfrentar o frio que estava fora do meu cobertor, e pegar no livro. Assim posso criticar o “homenzinho” com argumentos muito mais válidos, pensei. E assim foi.

Li cerca de metade, e ele já está a chamar por mim para ler o resto. Não é que o estupor do livro me está a intrigar ligeiramente?

Maldito sejas Saramago. Tu, o teu prémio Nobel e o teu snobismo ranhoso. Como diria a minha mãe, bem me “quilhaste”.
RITA