domingo, 27 de fevereiro de 2011

"Como disse?"


Chamaram-me para administrar um injectável. Lá abandonei as imensas caixinhas de comprimidos e cremes e subi as escadas moderadamente contente. Afinal, neste meu emprego, vão sendo raras as ocasiões para me sentir minimamente enfermeira. Vou fazendo de tudo que posso. Muito de auxiliar de farmácia, alguma coisa de estafeta ou menina de recados, quanto baste de "arrumadora de coisas em geral", muito pouco de enfermeira. Não é portanto de estranhar que uma merdice de uma injecção me deixe contente. Visto a bata e o meu sorriso amistoso e lá vou eu.

Sempre tive a sensação que as pessoas me tratam de maneira diferente por trabalhar numa farmácia ao invés de estar num hospital, por exemplo. Talvez tenham razão. Dar injecções e avaliar tensões arteriais não faz de mim uma enfermeira.

A senhora lá entrou, baixou a saia e deitou-se na marquesa. Quando acabei ela continuou deitada. Perguntei se estava tudo bem, e disse que se estivesse podia se levantar. Ao que a senhora diz, num tom de como quem fala com o mordono:

"Menina, faça o favor de me massagar o rabo para o líquido espalhar melhor".

Como disse? Quando é que eu passei de profissional de saúde para massajadora de rabos? Definitivamente ando a fazer alguma coisa errada. Se ao menos ter outro emprego fosse uma opção de escolha.

Este é só um exemplo de como atender utentes é tão diferente do que atender CLIENTES. Não, não tenho feitio para atender clientes. Embora na sua essência os utentes ou doentes, sejam sempre clientes. É só uma questão de como lhe querem chamar.

Mas estes são tão clientes ao ponto de exigirem que lhe massagem o rabo.


ALICE

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Há qualquer coisa neste poema

Caranguejola

- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Paris - novembro 1915

RITA


Outra vez 19/02

"Nas Asas de Um Anjo que és Tu"
E mais não digo, porque já foi tudo dito aqui.

RITA



domingo, 13 de fevereiro de 2011

O interior da minha tola...



...está assim!!


RITA, a insípida