quarta-feira, 29 de setembro de 2010

À Melhor de Três #1

6 de Dezembro de 2008

"Julgo que sei, mas não sei nada. Tudo que os dias me levam é apenas o tempo. É inútil e não são capazes de levar mais nada. Não há nada para levar. A minha carga é leve. Leve demais para se poder chamar existência. Os dias nada me roubam, nada me roubam excepto aquilo que não quero ter. Os dias levam-me a vida. E descubri que não quero viver, pelo menos não assim. Os meus dias não contam histórias, não sabem nada. Não há nada para contar. Tudo é como se planeou. Nada se entrepõe no meu caminho. Quero pedras no meu caminho. Também tenho direito a construir um castelo. Nada, nem uma falha para melhorar a história.

Não sei porque escrevo, não há nada para escrever. não existem linhas mais ocas que as minhas, não existem palavras mais vazias que estas. Não quero paz, farta de paz estou eu. Que insolência pegar nesta caneta e usá-la como se de algo útil se tratasse. Não vale nada. De nada vale gastar mais tinta, mais papel. Que inocência a minha continuar a escrever. Preferia assinar em cruz. Provavelmente teria muito mais a dizer.

Porra para os dias que teimam em passar sem aviso prévio. Deixem-me um bilhete! Queria que os dias me ensinassem a viver. Mas limitam-se a passar. Apenas a passar.

E eu parada, no mesmo banco do recreio da escola, a ver os dias passar. Um dia vou dar por mim e estou velha, e não me levantei do banco, porque ninguém me fala, ninguém me explicou que os dias passam sem satisfação. Podia ter andado no escorrega. Ai, como queria ter andado no escorrega. Mas não, era arriscado. Podia ter sentido o vento, a adrenalina. Mas não, podia cair. Ficar no banco parece muito mais seguro. E é aqui que vou ficar. Inerte. Vou vendo os outros sorrir enquanto descem no escorrega. Não me mexi e estou tão cansada. De ver os dias passar. Que mania de não levarem nada para contar. Ninguém se vai lembrar de mim. Vou morrer porque me deixei ficar e não quis arriscar o escorrega.

Estou farta de escrever as mesmas palavras. Digo para mim que chega, mas nunca, nunca chega. Mania insane de querer sempre mais e mais. Mas sem nunca levantar a merda do rabo do banco.

Um dia vou acabar no chão. Levada pelo cansaço vou tombar e nunca ninguém se vai recordar da queda."




ANA

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