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sábado, 3 de abril de 2010

Como chove...


Isto de estar desempregada não é só coisas más. Há que procurar sempre o lado positivo das coisas, mesmo que ele esteja muito bem escondidinho.


Hoje, por exemplo, acordei e deixei-me ficar na minha cama, enroladinha no quentinho do meu refúgio, simplesmente a disfrutar da chuva a cair torrencialmente lá fora...


Não tinha onde ir, nem comprimissos, nem horários...nada. Podia simplemente "deixar-me estar" a ouvir a chuva bater na vidro da janela.


Digam lá que isto não é um dos prazeres da vida...
RITA

quinta-feira, 25 de março de 2010

"Ala que se faz tarde"

Eu até sou gaja para gostar de cozinhar, mas dada a minha última aventura pelo mundo da pastelaria, claramente fracassada, decidi que talvez não seja mesmo este o meu caminho. O que não deixam de ser boas notícias. Ora sigam lá o meu raciocínio:

Pasteleira: não sirvo, queimei os meus mini-palmieres, que tinham tudo para dar certo, uma vez que me limitei a comprar a massa já feita, e moldar aquilo da maneira mais similar, e “olarilas”, era só atirar com aquilo para o forno. Certo? ERRADO! Claro que se alguém mais distraído me perguntar o que raio se passou ali, eu tenho já um ou dois álibis prontinhos na ponta da língua. Posso sempre alegar que o forno não presta, é a gás, não cozinha de forma igual, pregou-me uma partida (é sempre fácil culpar uma outra coisa que não nós). Posso sempre dizer que fui num instantinho salvar o gato da vizinha que estava preso em cima de uma árvore e demorei mais tempo do que pensava (dá um certo charme dizer que a culpa da minha distracção foi o meu sentido de salvadora da pátria, sempre pronta e disponível para ajudar). Posso alegar que me deu uma tal dor de barriga que foi impossível aguentar, tive de chamar o INEM e sabia perfeitamente que ia queimar os palmieres (lembro-me bem que as minhas “dores de barriga” ou “problemas femininos” livraram-me de muitas boas aulas de educação física, porque não haveriam de resultar agora?). Tudo isto seria plausível, e vindo de uma pessoa tão credível como eu, jamais alguém ousaria duvidar, mas a verdade é apenas e só esta: “hum...cheira-me a qualquer coisa! MERDA, OS PALMIERES”.
- Pasteleira cortada da lista.

Operadora de Caixa: poderia ser uma opção, não fosse o facto de ter chegado ao fim do meu singelo contrato de 6 meses com aquela empresa que não se pode aqui dizer o nome, mas que começa com S e acaba com E, e que no meio tem ONA, e a dita empresa não tem mais nada e olha, “vai-te embora que já tiveste a tua oportunidade e isto de te pagar mais 6 meses era capaz de ser uma chatice”. Eu até nem desgostava daquela coisa de colocar palmieres já prontinhos a ser consumidos dentro de sacos de plástico biodegradáveis, assim como perguntar se quer descontar do cartão ou arredondar para ajudar a Madeira umas 1524 vezes por dia, mas realmente não me fez nada bem às minhas ricas varizes.
- Menina de caixa cortada da lista.

Ajudante de Cozinha: outra coisa que eu experimentei, com toda a ingenuidade de uma adolescência em construção. Lavei muitas panelas, muitos pratos e copos, arranjei muita salada, fiz muitos crepes e gelados, cozinhei muitas francesinhas, tostas mistas, cachorros da casa, hambúrgueres no pão e afins...aquilo até estava a correr muito bem até descobrir que uma colega minha ganhava menos que eu, pelo mesmo serviço e horas de trabalho. Eu até podia esfregar as mãos de contente e ficar caladinha no meu humilde cantinho, mas não, fui feita fina questionar a “chefona” o porquê de tal acontecimento. Maldita hora que o fiz pois a senhora não tem mais nada, faz uso do seu autoritarismo e de espátula dos crepes em riste desata num berreiro desenfreado, fazendo ver a toda a gente que quis ouvir que eu não ia era ganhar mais nada, pois estava despedida.......”ÉS UMA SINDICALISTA”, proclamou. Fui para casa chorar nos ombros dos meus pais, não só porque me mandaram embora, mas porque tinha 17 anos e ainda nem sequer sabia o que era um sindicalista.
- Lavadora de pratos/engraxadora cortada da lista.

Parasita da Sociedade: Seria perfeito, o cargo ideal para uma pessoa com o meu perfil. Até já estava a imaginar o meu Curriculum Vitae: capacidade de dormir até 14 horas diárias, capaz de vegetar no sofá até ganhar úlceras de pressão, inigualável competência de comer sem ter de cozinhar, ineficaz em tentativas de efectuar qualquer tipo de tarefa doméstica. Ai como seria perfeito, não fosse um pequeno contratempo: o tostãozinho, o pilim, a massa...de onde viria ela?
- Lesma remelosa cortada da lista.

E sim, isto são excelentes notícias. Então não é que só agora é que eu percebi? Se não consigo ser nada disto, é porque a minha vocação é mesmo ser ENFERMEIRA! Só pode! É que, PORRA, gosto mesmo daquilo. Tenho saudades de tudo que está intrinsecamente ligado à profissão que escolhi e estou para aqui a ver o Mundo girar.

Sim, são excelentes notícias para quem precisa de um último empurrão. Aqui não há trabalho? Acelerar com os papéis, e ‘bora emigrar que já se faz tarde.
ALICE


PS: Quem achar que eu estou doida, agradeço que não me digam, não vá eu mudar drasticamente de opinião e acabe a lavar pratos.
(Sindicalista...eheheh, agora que penso e que sei o que é, a senhora teve a sua graça).


terça-feira, 16 de março de 2010

Vida em Stand-by

Eu acho, melhor, tenho a certeza, que deveria estar a fazer muito mais do que realmente faço. Deveria estar a mandar mais currículos dos que efectivamente mando, deveria tratar dos meus papéis para emigrar com muita mais velocidade do que realmente trato, deveria estar a escrever o meu artigo cientifico, em espera desde Julho do ano passado, deveria fazer mais serviços na Cruz Vermelha dos que os que estou a fazer neste momento, deveria levar a recruta mais a sério, deveria fazer mais exercício, deveria sair mais de casa para ver o sol e o mar, que está mesmo aqui ao pé, deveria sair à noite e ver os meus amigos, devia ir ao cinema de vez em quando, devia comer menos gulodices, devia...devia....devia....

Mas não, o desemprego absorveu-me por completo e sinto toda a minha vida, pessoal e profissional, em stand-by.

Deveria fazer muito mais, e no entanto só me apetece ficar inerte e ouvir disto:




É que este homem, para mim um dos maiores poetas deste País, e a sua voz, fazem-me sentir como se não existisse mais nada no Mundo.....e assim fico!!



RITA

quarta-feira, 3 de março de 2010

Maldito sejas, Saramago


Uma das coisas que recebi no Natal foi um livro de José Saramago. Assim que abri o embrulho pensei baixinho que era óbvio que a pessoa que me oferece tal coisa não me conhece de todo. Saramago nem pensar. Tudo no homenzinho (pode-se chamar “homenzinho” ao senhor?) me irrita, me entra na pele e me tortura. E não se trata da sua recente quezília com “Deus”, mas toda a sua postura desde que me lembro de existir e de estar minimamente atenta ao que se passa à minha volta. Rapidamente o livro foi colocado na prateleira, atirado ao abandono, sem sequer ter direito a uma folheada para lhe tomar o cheiro (e que bem que cheira um livro novo). Isto até há dois dias atrás.

Desde que acabei o curso, e entrei neste novo e maravilhoso mundo do desemprego, que tento retomar o hábito tão intrínseco que tinha de ler. Lia muito, mas a faculdade fez-me esquecer esse meu gosto, infelizmente. Muito culpa dos grandes calhamaços de anatomia, esses depravados. Tinha acabado de ler o meu “Ainda Alice”, que me entreteve durante um tempo, quando reparei que me estava a deitar na cama sem ler. É bom sinal quando sinto que me faz falta. Da cama atirei um olhar de soslaio ao “Todos os Nomes” de Saramago, impávido e sereno na mesma prateleira, tal e qual como o deixei.

Deveria? Não, é Saramago

Ele até é fininho, deve ser rápida a tortura. Porque não? Não, é Saramago

Os vizinhos já os li a todos, embora há um bom tempo atrás, certo? Não, é Saramago.

E esta minha dúvida, se me erguia ou não da cama para alcançar o dito cujo, fez-me pensar naquelas pessoas, e que eu tanto crítico, que dizem que não gostam de certo prato de comida, mesmo antes de o provarem. Como grande adepta da culinária que sou, fico extremamente ofendida quando alguém se recusa a comer o manjar que eu preparei apenas com o olhar, exclamando corajosamente: “Não gosto”. Ingratos!

A verdade é que nunca li José Saramago. E para ficar de bem com a minha consciência resolvi levantar-me, enfrentar o frio que estava fora do meu cobertor, e pegar no livro. Assim posso criticar o “homenzinho” com argumentos muito mais válidos, pensei. E assim foi.

Li cerca de metade, e ele já está a chamar por mim para ler o resto. Não é que o estupor do livro me está a intrigar ligeiramente?

Maldito sejas Saramago. Tu, o teu prémio Nobel e o teu snobismo ranhoso. Como diria a minha mãe, bem me “quilhaste”.
RITA

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Coitadinha é que não...

O que mais me irrita sobre o facto de estar desempregada é ter de aturar, basicamente, a treta dos outros. É que não há nada pior do que pessoas que não sabem nada da minha vida e da minha situação a mandar o seu “bitaite”. Seeeeeeeeeeempre....todos os dias, a toda a hora.

-“Porque não tentas aquele hospital XPTO?”

-“Porque não vais para Espanha?”

-“Devias mandar mais currículos!”

-“Estás a acomodar-te.”

-“Devias insistir mais.”

-“Podias continuar a estudar.”

-“Não devias estar a trabalhar fora da tua área.”

É que já não há paciência!!

Não entendo como é que certas pessoas sabem tanto da minha vida, como devo geri-la e organizá-la, melhor mesmo que eu. Isto vindo de pessoas que me vêem quando o rei faz anos faz-me uma ligeira comichão.

Pior que isto é as pessoas que olham para mim como se eu fosse alguma desgraçada da sociedade. Tal como já referi, sou operadora de caixa, e como tal, atendo demasiada gente conhecida. Comentário típico: “Ai coitadinha, olha tiraste um curso para agora trabalhares aqui”.

Coitadinha??? COITADINHA??? Já dizia a minha avó que coitadinho é corno....e é bem certo.
Então vejamos:

Ponto núm.1: Se estou a trabalhar temporariamente fora da minha “praça”, é porque EU quero. Ninguém me obrigou e não, não passo fome em casa, nem nunca me faltou abrigo.

Ponto núm.2: Contrariamente ao que as mentes mais inocentes podem pensar, não estou a pensar fazer carreira em ensacar leite meio-gordo e pão de forma sem côdea.

Ponto núm.3: (e muita gente não entende isto) não considero que trabalhar numa outra coisa seja perda de tempo. Seja em que área for, tudo se transforma em ganho de conhecimentos, e ninguém tem o poder para dizer que um conhecimento é mais importante que outro. Quando tinha 18 anos trabalhei numa cozinha, a lavar pratos e panelas, e aí ninguém me chamou de coitadinha (supostamente fazia-me bem saber o que custa ganhar uns trocados), mas agora, só porque tenho um canudo na mão o trabalho parece tornar-se menos valorizado.

Ponto núm.4: Se tomei a decisão de trabalhar, não foi de ânimo leve. Além de não ganhar raízes ao meu sofá e voltar a deprimir (tendência assustadora em mim), o dinheiro que estou a ganhar, está intacto à espera que os meus papéis para emigrar estejam prontos. Sim, minha gente, porque até para ir ganhar dinheiro lá para fora, é preciso (espantem-se) DINHEIRO!!


RITA