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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Outra vez 19/02

E lembro-me de uma tarde de ensaios, como tantas outras. Nós no coro sentadas em fila nos banquinhos de madeira, o rapaz da bateria lá atrás a tentar levantar as sais das miúdas com as baquetas, a boa disposição, os risos, as gargalhadas. E nós sentadas...e ela apé...meia destrambelhada, como sempre foi e como nós nos riamos por ela ser assim. Porque era mesmo assim que gostavamos dela. E o Chico, nosso professor de canto e música, o que se pode chamar de uma pessoa porreira, sempre com uma palavra de alegria, mas que até para ele a paciência tem limites, e a cada duas frases dizia:


-G., senta-te!


-G., está quieta!


-G., Está calada!


E nós riamos. Porque ela era mesmo assim.


E ia à porta. E ia à janela. E ia ao baterista (ai o baterista). E voltava para a nossa beira.

E nós riamo-nos.


E chega a hora de cantar. E diz o Chico:


-Vá meninos, todos de pé.


E nós obdeciamos. E eis que ele passa um olhar por nós, e todos apé, em sentido. Mas alguém estava sentado. Era ela. E o Chico diz, quase cansado:


-G., põe-te apé.


Ao que ela responde, de sorriso matreiro:


-Oh, agora estou cansada!


Nós rimo-nos. Até o Chico não controlou a gargalhada.


Porque ela era assim.

E eu tenho saudades dela.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um dia conto os km

Quando estava no meu anterior trabalho visitei uma data de terras e terrinhas. É certo que pouco conheci de cada uma delas, mas ficou aquela sensação que andei por imensos sítios (ou não). A verdade é que sempre que vejo o Preço Certo da RTP1 e os concorrentes dizem de onde são, dou por mim a dizer muitas vezes "já lá estive"!!

Ora toca a conferir os sítios, que apontei religiosamente na minha agenda:

Lisboa - a capital surpreendeu-me pela positiva
Torres Vedras
Pontinha
Évora - onde passava a maior parte do meu tempo e a que me deixa mais saudades. Hei-de voltar e jantarei mais uma vez na Adega do Neto...onde sempre me trataram bem e onde comia ainda melhor!
Vila Viçosa
Redondo
Ferreira do Alentejo - onde me tentaram dar uma ovelha :)
Sta. Iria de Azóia
Reguengos de Monsaraz - bom vinho, dizia o doutor!
Torre de Coelheiros - onde encontrei pessoas simpatiquíssimas
Mourão
Marinhais
Samora Correia - o meu irmão dizia que trabalhava por lá mas nunca o vi (ehehe)
Salvaterra de Magos
Sacavém
Seixal
Odivelas
Setúbal
Sesimbra - praia linda. Por lá comprei um moínho de vento para o meu afilhado
Coimbra - onde comi o melhor jantar pago pela empresa de sempre. Quem diria?
Vendinha
Santiago de Escoural
Montemor-o-Novo - onde havia os viveiros e vinha a perder de vista. E onde a carrinha me deixou ficar mal e 3 senhores muito simpáticos me salvaram (como quem diz)
Benavente
Alcabideche
Manique
Alfragide
Sobral de Monte Agraço
Lourinhã - onde corajosamente perguntei a um senhor de onde vinha a expressão "pareces da Lourinhã"
Toledo
Alhandra
Loures
Cascais
Barreiro
Almeirim - não encontrei os melões, mas sopa de pedra havia com fartura
Bobadela
Prior Velho
Fanqueiro
Alqueva - tive de parar a meio da viagem para fotografar a barragem
Barrancos - o melhor chouriço de porco preto de sempre e onde estava a empresa mais simpática com que trabalhei. Até porque nos deu uma caixa cheiínha de coisas boas que se saem dos porcos (yumi)
Alvito - a vila onde mais relaxei. Estivemos lá uma semana e ao fim de dois dias já toda a gente da vila nos conhecia e nos tratava pelo nome. O doutor não quis voltar porque diz que não consegui dormir com o sino da igreja...o homem que morava ao lado do aeroporto
Viana do Alentejo - onde uma vaca nos tentou cortar o caminho. Tinha cara de poucos amigos
Casas Novas de Mares
Cadaval
S. Pedro do Corval - capital da cerâmica. Trouxe de lá uma malga para a minha mãe, muito gira e muito estimada
S. Marcos do Campo - bom almoço, dizia o doutor. Era bochechinhas de porco preto mas eu cá fiquei-me pela sopa.
Cabeça de Carneiro - a que tinha o nome mais engraçado. Foi algures por aqui que vi um tornado de areia
Valverde
Póvoa de Sto. Adrião
Mora
Vila de Cabeção
Canaviais

Escusado será dizer que sinto imeeeensas saudades do Alentejo, algumas de Lisboa mas que bem que se está no Minho!!



RITA

sábado, 30 de abril de 2011

Se a vida fosse justa hoje era dia de festa

Mas não é.


A G. gostava dos Anjos. Mas aquele gostar que para mim quase me parecia doentio, em que comprava os CD's todos, e estava na primeira fila dos concertos, de cartazes na mão. Sabia as letras todinhas de côr e chegou a estar com eles algumas vez. Eu nunca percebi muito bem aquele fetiche. Mandava as minhas piadas de que ela era uma pimbas, e ela ria-se...e continuava fiel aos seus gostos.


Bastante tempo depois dela morrer eles escreveram uma música que eu evito ouvir em público porque sei que me faz chorar. Talvez seja ilusão minha mas parece ter sido escrita à medida dela. Ela não chegou a ouvi-la, mas tenho a certeza que iria adorar.




A maior mentira que me contaram é que o tempo cura tudo. Não cura. A saudade continua a doer. E doi, doi muito.


Hoje (para mim ainda é dia 29) faria 25 anos. Se a vida fosse justa era dia de festa.


RITA

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Outra vez 19/02

"Nas Asas de Um Anjo que és Tu"
E mais não digo, porque já foi tudo dito aqui.

RITA



domingo, 20 de junho de 2010

Lar, Doce Lar


Ena ena...ando tão contente com o meu novo trabalho (not) que nem tenho vontade de andar por aqui a contar as novidades.


Isto de ser enfermeira e andar a conduzir uma autocaravana todos os dias não era propriamente o meu sonho de criança mas é o que há....toma e embrulha.


E pergunto eu: cadê as picas, e o sangue, e as lágrimas, e o alívio, e os olhares de agradecimento eterno??? Heim??? Cadê?


E depois há outra coisa: A capital.....oh senhores, a capital...

Ando a esforçar-me por gostar de viver em Lisboa mas não está fácil.


E porque não gosto, perguntam vocês????

A razão principal é que, na maioria das vezes, tenho de pagar 65 cêntimos por um café. É um ultraje...e depois há o trânsito, os apitos, o cheiro a suvaco no metro, demasiadas pessoas amargoradas e antipáticas por metro quadrado, as ruas imundas...o estádio de alvalade (eheheh)!!!


Bem sei que há coisas fabulásticas por descobrir...mas por algum motivo estúpido ainda não me dei ao trabalho de as procurar.


Sujestões aceitam-se!!


Mas não há nada como a nossa casa e é por isso que todas as semanas me dou ao trabalho de fazer os 400 e tal km de regresso....


Home Sweat Home...
RITA

sábado, 1 de maio de 2010

Saudade #2

Se a G. fosse viva fazia por estes dias 24 anos.

Enerva-me que ninguém se queira lembrar.
Enerva-me que desejem que eu me esqueça.
Não entendo o não querer falar do assunto.
Não entendo o querer fazer de conta que não aconteceu.

Enerva-me que as pessoas aparentem já não recordar que ficou uma vida por cumprir e demasiados sonhos por realizar...


ANA

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Quem me leva de volta?

Eu sei que esta coisa dos Açores já foi há quase um mês mas o estado de preguicite aguda em que vivo apoderou-se finalmente de todos os aspectos da minha vida, até mesmo, escrevinhar umas parvalheiras.

(Existe a palavra "escrevinhar"? E "parvalheiras", existe?)

...Moving on...

Eu até tinha todas as intenções de provar que estive mesmo nos Açores com uma foto maravilhosa da Lagoa das Sete Cidades, mas a verdade é que nem eu sei muito bem se estive mesmo lá.

É que do tempo que lá estive só era possível enxergar ISTO:




Oh larilas....não se via um palmo à frente do meu pobre e enorme nariz. Juro que quando cheguei lá em cima larguei uma pequena lágrima de tristeza.

Mas pronto, não foi tudo mau....vi as vacas (muitas vacas), e principalmente a calçada!
Sim, a calçada....porque andamos que nos fartamos, até me sair o dedinho grande do pé pelo sapato fora.

Enfim, diverti-me a valer, mas vim embora só com uma convicção: Vou ter de voltar um dia!


E mais não digo porque..."What goes on Açores, stays on Açores...".....(ou qualquer coisa parecida com isto...ouvi num filme e sempre quis dizer. eheheh).

RITA

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Saudade


É-me impossível transformar em palavras a dor que é perder um amigo. Faz hoje quatro anos que a leucemia levou a G. e, no entanto, o meu peito continua a apertar cada vez que o meu pensamento foge de volta para o que aconteceu. Dizem que o tempo cura tudo. Talvez, mas este é um sofrimento do qual eu não me quero curar. Quero recordar-me dela para sempre.
Foram três anos de luta, sempre com um sorriso nos lábios, e desde o início até ao fim esse sorriso enganou-me, fez-me acreditar.
Lembro-me tão nitidamente dos primeiros sintomas, do primeiro alerta. Ela parou a meio de uma das nossas aulas de música, chorava com a dor. Eu resmungava que ela era sempre a mesma fiteira. Ela sorria. Convenceu-me que não era fita. Nessa mesma noite ligou-me, estava no hospital e iam-lhe fazer um exame à medula. Não quis perceber, garanti-lhe que ia ficar tudo bem.

“Rita, tenho leucemia. Explicaram-me que é tipo um cancro do sangue, mas não faz mal porque o meu irmão é compatível e vamos fazer um transplante.”. Sorriu.

Dois dias sem saber dela. Resolvi ligar. Do outro lado uma voz mais madura, a mãe.

“Ritinha, a G. está em coma. Os médicos dizem que foi uma pneumonia e que está muito mal.”
Não sabia se sabia rezar ou sequer se alguém me ouvia, mas nos 15 dias seguintes foi tudo o que fiz. Rezei, na esperança que alguém me ouvisse.

“Um milagre”, disseram. Tinha acordado.
Durante meses vi a minha amiga ficar mais fraca através de um vidro.

“Estou um bocadinho melhor, já podes vir cá a casa.”
Quero ir, mas não quero ir. Passei horas naquele sofá. Durante três anos vimos filmes, ouvimos música, conversamos, jogamos jogos de mesa, festejamos um dos aniversários...e eu continuo sem saber se estive mesmo lá. Assim que pisava o chão daquela sala, assim que a via daquela maneira, mesmo sem sair do sítio, fugia. Escapava da realidade. Ela sorria.

“Este transplante não resultou. Tenho de fazer outro.”

“Este transplante também não deu certo. Vamos tentar outra vez.”

Num dia próximo do Natal lá fui eu a mais uma visita/tarde de distracção. Deu-me uns brincos feitos pela sua própria mão. “Tenho muito tempo livre”, disse, logo seguido por uma gargalhada. Aproveitando que eu ainda me ria, e enquanto punha os meus brincos novos:

“Rita, estou cansada. Chegou a hora de parar de lutar.” Sorriu.

Assim como estava, foi tal e qual como fiquei. Não chorei, não falei, não esperneei, não reagi, nada. Se me concentrasse muito podia ser que aquilo que ela tinha acabado de dizer não fosse verdade. Preferi ignorar. Se eu ignorasse talvez não se tornasse real.
Os dois meses seguintes foram de angústia contida e dissimulada. Era difícil contactá-la, saber notícias. Finalmente, a voz madura outra vez:

“Ritinha, eu sei que tens ligado mas a G. está muito cansada, não consegue atender, mas quando conseguir liga-te, está bem?”

Não me sossegou. Uns dias mais tarde recebo uma mensagem no telemóvel:
“Desculpa por não te ter atendido. Espero que saibas que não é por mal e que gosto muito de ti. Aconteça o que acontecer, nunca te esqueças que serás sempre muito importante para mim e que eu nunca te vou esquecer.”

Respondi:
“Eu também nunca te vou esquecer. Mas não sejas parva, vai ficar tudo bem”. Foi a última vez que falamos. Foi por escrito e eu disse-lhe a coisa mais ridícula do mundo! “Não sejas parva”. Como me posso perdoar?

Dois dias depois, num domingo pela hora de almoço, toca o telefone de casa. Atendeu a minha mãe, não falou. Do reflexo do espelho vi a cara dela, e eu que nunca quis perceber, percebi. O chão fugiu-me dos pés, as pernas cederam, e pela primeira vez em três anos, reagi.

Há quem diga que há momentos na vida que nos muda, e a partir daquele momento posso afirmar que nunca mais fui a mesma. Tinha 19 anos e perdi uma amiga. A morte dela mudou tudo, absolutamente tudo, na minha vida. Mudou a minha personalidade, a minha maneira de encarar tudo que me rodeia, a minha maneira de ser e de estar. Deixei de acreditar que era imortal, passei a acreditar menos na “vida é bela”, deixei de fazer amigos com facilidade, nunca mais consegui encarar alguns que já tinha. Tornei-me mais amarga, menos crente, mais medrosa, mais cautelosa, mais fria. E definitivamente muito mais triste.
Todos os dias penso como seria se ela estivesse aqui. Teria sido enfermeira como sonhava? Teria já casado? Filhos? Seriamos ainda amigas? Ou já nos teríamos separado à força de uma trivialidade qualquer? Seja como for estaria, com certeza, a sorrir.

Dois dias depois fiz anos, e fazer anos nunca mais teve o mesmo sabor. Um ano depois voltei a fazer anos...e a mãe dela deu-me uns brincos.

E eu sorri.

RITA
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Miúda, quando morrer a primeira coisa que faço é dar-te uma coça por me teres deixado tão cedo.
Fazes-me falta, porra...

ALICE
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E quando achava que já não havia mais lágrimas para chorar...

Continuo sem saber como te dizer adeus, digo-te antes, até um dia.

ANA